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Investigações revelam esquema de corrupção no governo da ex-presidente Cristina Kirchner Leia mais:


Apesar das denúncias da "Lába Xáto" argentina, ela consegue manter apoio da maioria de seus eleitores

“A corrupção é como o tango. Precisa de duas pessoas para ser dançado e de forma bem juntinha: o empresário que paga e o político que recebe.” A frase, pronunciada meia década atrás pelo jornalista Daniel Santoro, autor de diversas investigações de casos de corrupção no último quarto de século na Argentina, ilustra bem o Caso dos Cadernos, uma versão local da brasileira Lava Jato. A diferença com o caso do Brasil é que esta “Lába Xáto” — tal como os argentinos pronunciam, tentando imitar o sotaque brasileiro — não envolveu ainda integrantes do governo de Mauricio Macri, já que só atinge as gestões de Los Pinguinos (em português, Os Pinguins, apelido do casal Kirchner). Isto é, o governo do defunto ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) e de sua viúva, a ex-presidente Cristina Kirchner (2007-2015). Mas envolve um dos primos de Macri, o empresário Ángelo Calcaterra, que fazia negócios com o kirchnerismo.


A outra diferença é que o juiz encarregado do Caso dos Cadernos, Claudio Bonadío, já era famoso antes do escândalo, e seu nome nunca foi especulado para ser vice-presidente ou presidente, nem sequer ministro da Justiça. Bonadío, de jeito rabugento, não é midiático e não gera frisson no eleitorado. O promotor Carlos Stornelli tampouco aspira a uma carreira política.


Enquanto a cleptocracia brasileira era “distributiva” nas propinas da Lava Jato, no Caso dos Cadernos o casal Kirchner, segundo as denúncias, concentrava o recebimento do dinheiro, que depois era dividido com alguns ministros. A obsessão pelo controle chegava a tal ponto que o dinheiro era entregue diretamente no apartamento dos Kirchners na esquina das ruas Uruguay e Juncal, em pleno bairro portenho da Recoleta, ou na residência presidencial de Olivos.


Para liberar obras para os empresários, os Kirchners exigiam pagamento de 10% a 20%. Os cadernos registram uma quantia de propinas superior a US$ 200 milhões. Mas cadernos de apenas uma das testemunhas. Os analistas calculam que, entre 2003 e 2015, o Ministério de Obras e Planejamento administrou verbas de US$ 100 bilhões. Especula-se que, no mínimo, os Kirchners e aliados teriam ficado com US$ 10 bilhões — sem incluir as propinas em outros âmbitos. O pagamento era cash. E em dólares. Caso os pagamentos entregues aos Kirchners fossem feitos em pesos, eles se enfureciam.


Ex-assessores kirchneristas. e empresários foram pegos pela Justiça graças a oito cadernos nos quais Oscar Centeno havia anotado, com todos os detalhes — como se fosse um “diário de bordo” da corrupção —, os horários e endereços das entregas de dinheiro, os nomes de quem enviava as propinas e de quem as recebia, as quantias transportadas e até o peso de cada mala. Centeno era um dos vários motoristas que faziam esse “delivery” de propinas e que trabalhavam para Roberto Baratta, subsecretário do então ministro de Obras, Julio De Vido.


O escritor Federico Andahazi refere-se à ex-presidente Cristina como “Cleptopatra”, em ironia a seus modos autoritários de uma faraó egípcia e à cleptocracia que imperou em seu governo. Essa imagem de Cristina como “chorra” (“ladra”, na tradução da gíria portenha) está presente na mente da maioria dos argentinos. Isso é o que indica uma pesquisa da consultoria Opinaia, que sustenta que 73% dos entrevistados acreditam que a denúncia sobre os cadernos das propinas é verdadeira. Os restantes 27% consideram que se trata de uma “armação” política.


A pesquisa também consultou especificamente os eleitores kirchneristas, que se dividem em três tipos:


1. Os fiéis-crentes: constituem 70% dos kirchneristas. Eles consideram que as denúncias não passam de mentiras para desacreditar Cristina, seu ídolo político.


2. Os pragmáticos: representam 20%. Eles acreditam nas denúncias de corrupção. No entanto, alegam que “todos os governos são corruptos”. Afirmam que, entre votar num corrupto que pensa como eles e votar num corrupto com outra ideologia, preferem continuar votando na corrupta Cristina. “Ei! Pelo menos ela é nossa corrupta!”, disse-me um militante kirchnerista, citando o clássico “rouba, mas faz”.


3. Os desencantados: são 10% dos pesquisados. Continuam alinhados ideologicamente com Cristina, mas estão decepcionados com a ex-presidente devido às provas sobre os casos de corrupção. As pessoas desse grupo decidiram que não votarão mais na ex-presidente.


No ano que vem o país terá eleições presidenciais. Cristina — que é senadora e conta com foro privilegiado — já antecipou que pretende voltar ao poder. Seu teto, por enquanto, está na faixa dos 25% aos 30%. Essa proporção não cresceu nos últimos tempos, mesmo com a queda de popularidade do presidente Mauricio Macri, cuja aprovação está entre 32% e 37%, devido à crise econômica. Para complicar, a paralisação das obras públicas devido ao escândalo — outro ponto similar ao Brasil — está esfriando a economia. E isso também complica as chances de Macri de “cortar fitas” para inaugurar obras.


A sorte de Macri é que outros caudilhos disputam com Cristina o eleitorado peronista e ambicionam a cadeira presidencial. Analistas acreditam que uma eventual prisão da ex-presidente a tornaria uma “mártir” e unificaria o peronismo, que a utilizaria como bandeira. No entanto, Cristina em liberdade implica permanência das divisões entre os peronistas. Com a imagem da ex-presidente maculada pela corrupção, esse cenário seria mais útil para Macri.

Postado pela Época no dia 05/09/2018 às 19:23

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